terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Alguns esclarecimentos sobre a palavra Yôga

Queridos todos,

Afinal, como se escreve e se pronuncia correctamente o nome da filosofia que preconizamos? Yôga, yoga, yóga, iôga, ióga, ioga...

Será tudo a mesma coisa? São apenas formas diferentes de se pronunciar ou escrever? De facto, com o passar do tempo, as divergências na proposta original deram origem a coisas completamente diferentes, métodos diferentes, públicos diferentes, abordagens completamente distintas. Não existe nada de errado nisso mas é um tema que necessita de ser esclarecido.

Assim como na natureza, onde tudo o que existe nasceu de um ponto comum, é perfeitamente normal que este tipo de fenómenos aconteçam.

A palavra original, que dá nome a esta filosofia ancestral da Índia antiga, criada muito antes de sequer podermos chamar esta região de Índia, provavelmente já se perdeu no tempo. Assim como o nome do seu criador, Shiva, que muito certamente seria outro qualquer. Afinal, não temos registos históricos suficientes que possam comprovar esses dados e mesmo que o tivéssemos, não saberíamos a pronúncia correcta pois 5 mil anos de história, associados a guerras, invasões, aculturações e miscigenações são decerto suficientes para destruir essa informação. É também importante lembrar que a cultura dravídica, berço desta filosofia, era muito diferente daquela que ganhou a guerra e que registou esta tradição na história, integrando-a no Hinduísmo. Esta filosofia ficou conhecida como:

Esta é a palavra sânscrita, língua morta da Índia antiga, para alguns não morta mas erudita, uma discussão que pouco nos interessa. A sua pronúncia correcta foi gravada por um sânscritista, o professor de sânscrito Dr. Muralitha. Nada melhor do que ouvir para perceber e a tecnologia é óptima porque nos permite fazer estas coisas. Se precisasse de explicar por texto jamais seria tão preciso! Esta é também a grafia na sua forma original, com os caracteres correctos, no alfabeto dêvanágari, assim como está escrita em todas as grandes obras da história que referem esta tradição cultural.

Como a maior parte dos meus leitores, e espero que sejam muitos, não consegue ler em caracteres dêvanágari, vou dissecar um pouco esta imagem.

Alguns de vocês podem questionar com o facto do Y não estar no dicionário português, ou de que o "ô" não precisa de acento para ser fechado, ou ainda que como a palavra termina em "a" é feminina e não masculina ou um sem número de argumentos que podem deturpar a palavra original.

Antes de mais, e porque este é o argumento mais importante e que pode esclarecer quase todas as dúvidas, Yôga não é uma palavra portuguesa, nem inglesa, nem italiana, é uma palavra sânscrita escrita em caractéres latinos. Não se cinge às regras do português pois não é uma tradução, pois nesse caso teríamos de dizer União ou Integração, e sim uma transliteração, processo pelo qual se escreve uma palavra de um idioma com caractéres de outro, sem adulterar a sonoridade e permitindo que a partir da nova palavra seja possível o caminho reverso, escrever no alfabeto original sem se perder informação. Isto acontece com um sem número de palavras como Kung-Fu, ying-yang e outras mais.

Depois, esclarecendo os mais resistentes, o acento no "o" não existe para mostrar que esta vogal é fechada, pois no sânscrito o "o" é sempre fechado. O acento, denominado "o-ki-matra" (o-de-acento, ou acento-do-o) serve para demonstrar que existe uma crase, nesta caso de vogais diferentes e que por isso, o "o" é uma vogal longa! No processo de transliteração, crases de letras iguais assinalam-se com acento agudo e de diferentes com circunflexo. É também correcta a utilização de um acento macro e ele é usado em algumas transliterações. (não consigo reproduzi-lo neste teclado)

No caso de pránáyáma, os 3 primeiros "a" são longos e o último é curto. Tão simples quanto isso! Se não utilizássemos os acentos e quisessemos voltar a escrevê-lo em dêvanágari iríamos suprimir 3 letras, Os 3 “a”! A pronúncia correcta seria perdida para sempre!

Depois, a sonoridade do i é totalmente diferente do y. O i revela um som estanque, como no italiano io (eu) e o y um som fluído, como no castelhano yo (eu). Isto produz uma diferença abissal, capaz de arranhar o ouvido de alguém minimamente sensível. Daí que, a pronúncia da palavra iodo não possa servir de exemplo. Por último, e não menos importante, Yôga é uma palavra masculina. Quase a totalidade das palavras sânscritas terminadas em “a” são masculinas. Assim como Shiva, Shankara, Káma, Krama, Karma, Dêva, Chakra, etc. Existem poucas exepções mas Yôga não é uma delas.

Para finalizar, sugiro a consulta de obras escritas em outros idiomas como o Léxico de Filosofia Hindu, de Kastberger, Editorial Kier, Buenos Aires, em espanhol ou o Pátañjali Aphorisms of Yôga, de Srí Purôhit Swámi, Faber and Faber, Londres em inglês e este datado de 1954 o que prova que o acento circunflexo não é uma temática nossa, sendo bem anterior à codificação do SwáSthya Yôga. Temos também um exemplo em português, Poema do Senhor, de Vyasa, Editora Assírio e Alvim, Lisboa.

Desculpem-me a extensão do post, mas o nosso trabalho prima pela excelência e para nós constitui gaffe cultural não só a pronúncia ou escrita errada da palavra, mas principalmente a falta de vontade e humildade para estudar, pesquisar e aprender a forma correcta.

Espero que tenha sido suficientemente esclarecedor e se restarem algumas dúvidas não hesitem em entrar em contacto. Estamos sempre disponíveis para ajudar.

Um mahá abraço a todos!

SwáSthya!


1 comentário:

Pedro Miranda disse...

Post FABULOSO!
Depois de o ler, sinto-me mais rico.

Mahá abraço!

Pedro