
Inícios de séculos implicam mudanças. Actualmente, além de século também mudamos de milénio. O mundo sofreu tantas alterações nos últimos cem anos que nos sentimos muitas vezes a entrar num comboio em alta velocidade, com um pé de fora e tontos sem entender onde fica a linha do horizonte.
É usual que exista ruptura de valores entre gerações, mas a divisão entre as actuais gerações, suscita mais um abismo do que propriamente uma nova proposta.
Fala-se por isso, em crise de valores. Não que seja uma ausência dos mesmos propriamente dita. A pirâmide parece muitas vezes invertida, isso sim. A heterogeneidade significante, acompanhada de uma busca incessante por novos valores, conduz muitas vezes a um enorme vazio.
Surgem promessas rápidas de felicidade duvidosa como resposta, mas a única certeza é que os modelos anteriores não funcionam.
O Capitalismo desenfreado é melhor que o Comunismo, mas deixa aquém, cria desequilíbrios e não serve a todos.
A Democracia continua a ser “a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos", conforme bem sugeriu Winston Churchill.1
A Família continua a ser a melhor forma experimentada para aparar as nossas quedas e investidas no mundo lá fora, dizem eles. Mas cada vez mais se apresentam novos modelos de família, e cada vez mais se assume que o modelo tradicional não serve a todos.
Também a instituição casamento, enquanto forma de relacionamento afectivo, é questionada e posta em causa.
Woody Allen, no seu reconhecido filme de 1977 Annie Hall, sintetiza o problema das relações afectivas numa anedota que acaba por traduzir aquilo a que hoje assistimos de forma brilhante:
“…Lembrei-me da velha anedota, do tipo que vai ao psiquiatra e diz:
-”Doutor, o meu irmão é maluco. Acha que é uma galinha. ” E o médico diz:
-“Por que é que não o interna?”. E ele responde:
-”Até internava, mas preciso dos ovos”.
É mais ou menos o que sinto sobre relacionamentos. São totalmente irracionais,e loucos e absurdos…Mas nós vamos aguentando por que precisamos dos ovos.” 2
Precisamos efetivamente de quem nos alimente as neuroses. Não queremos cruzar os braços e simplesmente reclamar, mas bem lá no fundo sabemos que tem de haver algo mais, do que ficar eternamente no círculo vicioso de alimentar neuroses e infernizar a vida daqueles que estão mais próximos.
Parece que se nos fosse dada a possibilidade de escolher aleatoriamente alguém com quem nos relacionarmos numa sala cheia de gente, escolheríamos justamente aqueles que nos confrontam com as nossas limitações. É nesse confronto que limamos as nossas arestas e nos superamos
Existem várias formas de amar, nenhuma é mais correcta que a outra, mas é bom conhecer a diversidade. E respeitá-la. Durante o processo de maturação da espécie humana, parece que assimilamos algumas regras como certas e que chegados a este ponto importa questionar. Erros de programação, que num contexto cultural nos foram sendo passados. Fizeram-nos acreditar que fosse a fórmula correcta. Melhor dito, foi a fórmula correcta, mas talvez não sirva a todos no limiar do terceiro milénio. Será que podemos ser felizes para sempre com o periquito e o gato? Será que temos de casar e ter filhos para nos realizarmos? Importa entender de onde vêm os mitos, analisá-los, destrinçá-los e depois de os entender, depois de nos entendermos a nós próprios, se mesmo assim acharmos que precisamos do T2 com vista para o mar para sermos felizes, então façamo-lo, mas na convicção de que o fazemos porque queremos e não porque alguém nos impingiu esse modelo.
1Winston Churchill, em discurso na Casa dos Comuns, em 11 de Novembro, 1947.
2“Annie Hall” Woody Allen, 1977. O filme apresenta várias referências modernas, tendo como tema central os relacionamentos. Numa outra parte assiste-se um curioso diálogo entre os personagens principais, onde o espectador poder assistir em tempo real ao que cada um diz, e àquilo que efectivamente pensa.
1 comentário:
Princípios, como o amor, nas suas mais variadas vertentes e facetas, estão, de facto, em falência... A instituição amor, senso lato, na qual tanto é preciso investir, também está sujeita aos rigores da acção dos especuladores e da sua falta de escrúpulos e avidez de dividendos fáceis, imediatos, mesmo que alguns deles efémeros... No entanto, a propósito da escolha de quem amar, a partir de um conjunto de pessoas numa sala, seria perigoso, ainda que curioso e até divertido, dispormos de mecanismos como uma OPA!... Vá lá que, ainda que, por vezes, funcione mal, porque se engana, temos uma grande entidade reguladora, chamada coração! Não obstante a crise do amor, amei a reflexão!
Pedro "Arcádia"
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