quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A minha inspiração ao inspirar!


Tal como dificilmente podemos entende o prazer de rir sem motivo perto de alguém que amamos, ou as borboletas na barriga quando saltamos de um avião, ou a magia do nascer do sol por trás das árvores ao som dos passarinhos, não há melhor forma de entender o pránáyáma que não seja fechar os olhos e lançar-se dentro de si mesmo.

Fecho os olhos, e no conforto de estar firmemente sentada, deixo que o polegar e o indicador se toquem delicada mas decididamente. Deixo-os trilhar esse caminho que de tão sulcado já se tornou magnético e quase posso ouvir o “clack” das duas epidermes a fecharem um vórtice. As minhas pálpebras acomodam o escuro dos meus olhos e o canto dos lábios ergue-se subtilmente adivinhando o prazer do mergulho dentro de mim.
Mergulho dentro de mim! Saboreio a paz de me encontrar só comigo, de saber que nada mais além de mim e do ar que me rodeia faz falta para dar magia a este momento. Entrego-me ao aqui e agora. Tomo consciência de algo que acontece desde sempre, o ar a entrar dentro de mim. Percebo a subtileza ao tocar as minhas narinas e inspiro desta vez absolutamente atenta a cada detalhe. Primeiro, o abdomen desloca-se para fora e quando o último dos centímetros dele estiver preenchido, as costelas afastam-se. E apesar de já parecer ter excedido a quota possível, a parte superior do peito ainda aumenta permitindo que mais energia fique dentro de mim.
Preenchida até ao último dos alvéolos apercebo-me de como é bom, como é imenso o prazer de trazer prána, essa energia que paira suspensa em torno e que transforma as minhas células em milhões de sóis. Deixo que o comburente seja inevitavelmente conduzido até ao fundo da minha coluna. Permito que o vulcão adormecido vá sendo insuflado, ganhando cor, primeiro laranja brilhante, depois vermelho vivo e cresça. Deixo-me seduzir pela explosão de lava incandescente que se quer erguer. Deleito-me com o quente que aí se forma. Entrego-me às matizes várias desta viagem ao centro de mim…e como é bom!
Fazendo a parte alta do tórax baixar, devolvo o ar ao espaço em torno, fazendo a zona intercostal regressar ao estado anterior e finalmente empurro o abdomen para dentro, espremendo o último reduto de ar que ainda se pudesse encontrar nos pulmões.
O calor que se formou viaja comigo e enquanto o ar sai, ele sobe, fazendo girar vertiginosamente esses centros de energia ao longo da coluna. Subindo e girando, sempre sem parar, trazendo o melhor de mim para a superfície do consciente, aumentando a minha capacidade de reparar nos detalhes ao meu redor.
Experiencio agora abandonar-me sem ar durante alguns instantes, aumentado o calor, a energia e as percepções desse mundo só meu, que não é diferente dos outros à minha volta, que é feito exatamente da mesma matéria.
E recomeço tudo de novo, pois cada bilhete representa sempre uma nova montanha russa dentro de mim, onde os trilhos embora fiquem cada vez melhor decalcados, antevêem sempre uma paisagem melhor.

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